quinta-feira, 31 de maio de 2018

CAMINHÕES EM MARCHA À RÉ

Insistência de alguns caminhoneiros em politizar a greve sugere uma
imitação barata do movimento de 2013
 (Foto: Roberto Parizotto/Públicas)

*Por Sérgio Montenegro

Se os remanescentes da greve dos caminhoneiros planejavam reprisar os efeitos do movimento de junho de 2013 nas ruas, usando o desprezo à atual classe política como combustível para incendiar os ânimos e angariar a simpatia da sociedade, engataram uma gigantesca marcha à ré. Para começo de conversa, defender intervenção militar é de uma cegueira histórica, sobretudo com tantos documentos hoje à disposição para comprovar o quão nocivos são os regimes de exceção. Além disso, os grevistas interferiram diretamente no cotidiano da população, com seus bloqueios nas estradas. Ao contrário deles, os manifestantes de 2013 ocuparam as ruas pacificamente – à exceção de uma minoria de anarquistas, os black blocs – sem impedir o livre trânsito nem atrapalhar o trabalho de ninguém.

Não se ouviu, naquela época, qualquer voz se erguer em favor da restrição de direitos individuais, que é, resumidamente, a base de uma intervenção militar. Os defensores da continuidade da greve – cujas reivindicações já foram atendidas – insistem que não se trata de prejudicar ninguém, e que não defendem uma nova ditadura. Do alto da sua estupidez, explicam que desejam “apenas” uma ação militar a título de “limpeza ética”, que permita, logo em seguida, se realizar uma eleição direta à qual somente políticos honestos teriam permissão de concorrer.

Para além desse delírio febril, a proposta expõe uma absoluta falta de conhecimento histórico por parte dos grevistas mais novos, e de memória, para os mais velhos. Esse foi o mesmíssimo argumento utilizado pela caserna para justificar o golpe de 1964. Ao depor o presidente João Goulart e assumir o poder, as Forças Armadas justificaram estar combatendo o “avanço comunista”, e prometeram “apenas” limpar o terreno para uma nova eleição direta. O resultado foram 21 anos de espera, em meio à censura, perseguições, torturas, desaparecimentos e mortes. Insensatez pode até ter limites. Estupidez, parece que não.

Há outras diferenças sensíveis entre os dois movimentos. Em 2013, as manifestações eram apartidárias e não contavam com lideranças personificadas. Sem falar que jamais ficou comprovada – ao contrário do que ocorreu na era dos “caras-pintadas” do início dos anos 90 – a participação de empresários nos bastidores, estimulando as passeatas. Nas ações de agora, as suspeitas de locaute agigantaram-se ao ponto de suscitarem investigações da Polícia Federal.

Indo mais adiante, nas mobilizações de 2013 – cujo estopim foi um reajuste de vinte centavos nas tarifas de ônibus – os pleitos agregados eram todos justos. Ninguém foi às ruas pedir intervenção militar, fechamento do Congresso ou cassação de direitos. Na verdade, o país esbanjava um dinheiro que não tinha em obras para receber uma megalômana Copa do Mundo, relegando a segundo plano deveres essenciais, como a construção de hospitais, escolas e outras obras sociais necessárias.

Por último, é bom lembrar que em 2013 as manifestações não ocorreram irresponsavelmente – como acontece agora – às vésperas de uma eleição, que já se previa delicada por conta do atual clima de ódio político vivido no país. Pedir intervenção militar faltando cinco meses para as urnas é fazer pouco caso da racionalidade do eleitor, dos seus direitos e da sua capacidade de promover mudanças.

Mas há, sim, uma relação subjacente entre os dois movimentos. Os alertas de extrema insatisfação disparados nas ruas em 2013, direcionados aos donos do poder, foram solenemente ignorados, a exemplo das reformas. Eles nada fizeram para amenizar a descrença da sociedade, turbinada pelas crises econômica, política e institucional. É claro que haveria um rebote em algum momento. Só não se imaginava que viria sobre rodas, de forma tão inconsequente e recheado de efeitos colaterais perigosos e irresponsáveis.

*Sérgio Montenegro é Jornalista Político, editor do blog Ordem do Dia e comentarista da CBN Recife. Pós-graduado em História da Política e MBA em Marketing Político e Estratégias Eleitorais. 

É autor ou coautor dos seguintes livros e trabalhos editados: “Na Trilha do Golpe: 1964 Revisitado”; “A Nova República: Visões da Redemocratização”; e “União por Pernambuco: Entre o desenvolvimentismo econômico e o pragmatismo eleitoral”.

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