domingo, 24 de abril de 2016

MARQUINHOS MARAIAL: A MÚSICA DEU VEZ AO LOUVOR

O compositor, conhecido por sucessos de bandas de forró, terá três músicas no próximo DVD de Bell Marques (MARAIAL/DIVULGACAO)
O compositor, conhecido por sucessos de bandas de forró, terá três músicas
no próximo DVD de Bell Marques
Aos 50 anos, o cantor, compositor, produtor musical e arranjador pernambucano Marquinhos Maraial diz ter mais de mil músicas gravadas. No currículo, composições interpretadas nas vozes de artistas dos mais distintos segmentos musicais, como os sertanejos Luan Santana, Gusttavo Lima, Leonardo e Bruno & Marrone, a diva do axé Ivete Sangalo, os forrozeiros Magníficos, Flávio José, Jorge de Altinho e Geraldinho Lins, além de Calypso e Araketu. A lista inclui hits do axé ao gospel: Te amo demais, Carta branca, Isso é Calypso, É chamego ou xaveco?, Química do amor, Zuar e beber, Ainda é tempo.

Marquinhos produziu bandas de forró eletrônico na década de 1990. E manteve parceria de mais de 15 anos com a banda Calypso, hoje dissolvida. São dele canções de sucesso do grupo, ao lado de parceiros como Edu Luppa e Beto Caju. “As bandas que ajudaram a me projetar foram Magníficos, Limão com Mel, Calcinha Preta, Brucelose, Aviões do Forró, Brasas do Forró e tantas outras”, relembra o artista nascido em Belém de Maria, município da Zona da Mata.
Cantando, Marquinhos fez dupla com Luppa e passou por palcos de cidades nordestinas, como o duo Edu & Maraial. Há cinco anos, resolveu largar os palcos para ficar apenas nos bastidores. Em 2014, Marquinhos iniciou carreira gospel e lançou o DVD Esperou por mim, gravado na Praia do Paiva, e, em 2015, o CD Porção dobrada, ambos pela gravadora Novo Tempo. “Minha função no estúdio é produzir, dirigir e fazer um arranjo. Trabalho usando meu dom para sustentar minha família. Só canto para Deus agora”, ele afirma. Hoje, o artista presta serviço para o estúdio Somax, na Rua Imperial, no Bairro do Recife.

A trajetória de Marcos Antônio Ferreira Soares é inusitada. Ele chegou a ser prefeito de Belém de Maria (2008 a 2012), mas largou a política e nem quer ouvir falar do assunto. Com 26 anos de carreira, conta que teve um “encontro com Deus” e isso o incentivou a mudar de vida. Desde então, ele faz parte da Igreja Adventista. “Minha vida é do estúdio para casa e de casa para a igreja”, afirma o compositor, casado há 25 anos e pai de cinco filhos: Marília, 21, Vitória, 17, Laila, 12, Marcos Vinicius, 9, e Ana, 6 anos.

Recentemente, Marquinhos produziu o disco da banda X-Calypso, criada por Ximbinha após a dissolução da dupla com a ex-companheira Joelma. E assina a música de trabalho do grupo, Saudade. Ele está em processo de finalização do novo trabalho da banda Forró do Muído. É autor, ainda, das canções de trabalho da banda Oito7nove4 (Se você fosse um peixinho e Se você me procurar). Além disso, terá três canções inéditas no novo DVD de Bell Marques, gravado no réveillon.

Preocupado com a categoria, Marquinhos faz um apelo aos colegas compositores. “Diante da bagunça que vivemos neste país, de muitas letras banalizadas, peço que coloquem a mão na consciência. Somos todos competentes e sabemos fazer músicas com letras de incentivo. Precisamos ouvir mais sobre o amor. Chega de tanta metralhadora”.

Entrevista Marquinho Maraial

“E chega de tanta metralhadora”

Como iniciou a carreira como produtor e compositor?
Em 1997, quando fervia o movimento manguebeat, entrei na banda Coração Tribal. A gente fazia world music, uma mistura de maracatu com pop inglês e reaggae africano. Chegamos a fazer turnê na Europa, gravamos CD produzido por Sérgio Mendes, em Los Angeles. A banda era formada por Jujuba (produtor), Gustavo (guitarrista), Carlos Borges (teclado), Cidi (bateria), Gabriel (contrabaixo), Alex Rocha (vocal) e eu, no sax e na percussão. O forró eletrônico também estava em ascensão. A necessidade me fez escrever. A primeira música de sucesso foi Te amo demais, com a banda Brucelose. Depois dessa, Deus abriu as portas e vieram outras centenas.

O trabalho dá retorno?
Sim, dá para viver bem diante de uma realidade difícil do nosso país. Já tive outros sonhos, mas minha felicidade maior eu encontrei, que é servir a Deus. Trabalho usando meu dom para sustentar minha família. Só canto para Deus agora.

Por que deixou os palcos?
Tive um encontro inusitado. Foi fantástico. Estava no melhor momento da minha carreira, a banda estava estourada. Mas tive um encontro espiritual no palco, na cidade de Eunápolis, na festa Pedrão de Eunápolis, no interior da Bahia, em 2010. Foi quando entendi minha real essência. Me descobri. Entendi de onde eu vim, o que estava fazendo e para onde vou. Foi definitivo para tomar minha decisão e deixar a banda. Hoje sou um cara super feliz. Me encontrei.

Como compositor para bandas de forró, brega e sertanejo, como chegou até o axé?
A gente faz uma música universal, pega o tema do amor e explora as historinhas. Uma música romântica boa tem um jeitinho que se encaixa em qualquer estilo. A música Amanhecer, por exemplo, fiz para minha mulher e gravei em ritmo de forró na dupla Edu e Maraial. A Musa acabou de gravar no DVD Amor de fã. Jamais iria imaginar que essa música ia ficar bem em ritmo de brega. E ela se enquadra bem.

Como surgiu a aproximação com Bell Marques e a banda Oito7nove4?
As músicas que eles gravaram são antigas. Estavam na gaveta há seis ou sete anos. Uns amigos compositores mostraram Se você fosse um peixinho, e eles ligaram para mim. Fiquei até surpreso. Aí, depois, Bell me ligou e criamos uma amizade. No último show que ele fez aqui, me convidou para ficar no camarim e tudo.

Com mais de mil músicas gravadas e sucesso nas rádios, qual o momento mais marcante da carreira?
Foi com a música Xonou, xonou, da banda Calypso. Na época, Edu recebeu o prêmio Trofeu Imprensa como música mais tocada do ano das mãos de Sílvio Santos, em 2010. Eu tinha acabado de sair da banda e não fui receber o prêmio. Já não queria mais aparecer na televisão. Outro momento foi quando concorremos ao Grammy Latino com Isso é Calypso (faixa do disco Volume 8, de 2005), da banda Calypso.

Como analisa o mercado de composições?
Hoje o mercado está mais dinâmico por conta da tecnologia. Os compositores estão compactando as músicas. Tem muita coisa ruim, mas também boas, com conteúdo, história que falam ao coração. O sucesso não tem fórmula. A única coisa de que é preciso para ter sucesso é determinação. Focar no que você quer. Além disso, precisa ter uma empresa forte por trás. Não basta cantar bem e ter música de qualidade, ainda falta a empresa para gerenciar isso aí. O mercado mudou muito ao longo dos anos. Antes, as músicas tinham maior critério na seleção. Existia uma preocupação em relação as letras. Nomes como Michael Sullivan, Peninha, Carlos Randall, são compositores para quem eu tiro o chapéu. Hoje a coisa está banalizada. Para fazer sucesso só precisa fazer um tchu tchu tchu e ter dinheiro para divulgar. Somos todos competentes e sabemos fazer músicas com letras de incentivo. Precisamos ouvir mais o amor. Chega de tanta metralhadora

Parou de compor música sobre farra, mulher, cachaça?
Eu bebia muito e a boca fala do que o coração está cheio. Fazia música de todo tipo. Hoje, não bebo, não fumo e não faço mais música com esses temas. Não vou contribuir com isso. É forma de incentivar as pessoas. Há cinco anos parei.

Como levar vida religiosa e compor músicas de forró, brega, axé e sertanejo?
Essa é uma pergunta boa, mas nem todo mundo entende. Se um advogado virar cristão, ele vai continuar advogando, mas não vai poder fugir da ética e dos princípios. Um policial vai ter que exercer a profissão dentro da linha. Um músico que conhece Cristo vai ter que exercer a função dentro dos princípios e da conduta cristã. Tudo precisa de equilíbrio. Não se pode virar fanático.


Entrevista concedida ao Diário de Pernambuco

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