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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

AS ORIGENS DA BATALHA ENTRE O JORNAL "EL CLARIN" E O GOVERNO ARGENTINO



Até amanhã, continuamos em Buenos Aires. Acompanhando um fato interessante que mostra o relacionamento entre a imprensa e o governo argentino, transcrevo para voces como nasceu a relação do maior jornal portenho com esse governo.
“Ganhamos da imprensa!”. Foi assim que o peronista Carlos Menem comemorou sua reeleição à Presidência da Argentina, em 1995. A celebração dá mostra de como é tensa a relação entre os grandes jornais, em especial o Clarín, e o poder na Argentina.
A tensão, hoje, é uma guerra aberta. De um lado, o governo da presidente Cristina Kirchner pressiona pela aplicação total da Lei de Mídia, aprovada em 2009, que obriga o grupo Clarín a acatar duas cláusulas antimonopólio, suspensas pela Justiça até a sexta (7/12), e abrir mão de licenças de rádio e TV. De outro, o Clarín responde com manchetes agressivas e reportagens com denúncias de escândalos em seus canais de notícias, rádios e programas televisivos.
“Na verdade, o que os Kirchner estão fazendo desde 2008 já era a vontade de vários presidentes antes deles”, diz a jornalista Graciela Mochkofsky, autora de Pecado Original – Clarín, los Kirchner y la Lucha por el Poder(Planeta). O livro esquadrinha a formação do conglomerado desde o regime militar (1976-83), quando houve a compra da indústria de papel-jornal Papel Prensa e uma aliança entre o Clarín e a ditadura. Seguiu-se uma relação de troca de favores e benefícios entre o grupo e governos democráticos, entre períodos de apoio político e rupturas.
Elogiado pelo raro equilíbrio num país tomado pela batalha midiática levada a cabo pelos Kirchner, o livro traz à tona bastidores das decisões políticas que favoreceram o Clarín, como a mudança da lei de meios de comunicação dos anos 90 que deu ao grupo um dos canais de TV aberta mais importantes do país. Descreve também inúmeras reuniões secretas de Néstor Kirchner (1950-2010) com o empresário Hector Magnetto numa época em que a empresa e os K eram aliados.
Graciela trabalhou nos jornais Pagina/12 e La Nación. Depois de períodos de estudos nos EUA, voltou à Argentina, passou a trabalhar como jornalista independente e lançou seis livros. Também fundou o site “El Puercoespín”, sobre política latino-americana.
Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista que concedeu à Folha, em Buenos Aires.
O jornal Clarín foi fundado nos anos 40. Por que retratar sua trajetória a partir da ditadura?
Graciela Mochkosky – Porque foi nessa época que o Clarín começou a pensar-se como um grande grupo multimídia. A compra da Papel Prensa [na qual é sócio do La Nación e do Estado argentino] começou a indicar o tamanho do poderio que viria a ter. Para isso, associou-se ao regime militar. É curioso que hoje a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) defenda tanto o Clarín quando, na época, criticou a associação do grupo com a ditadura.
Hoje a principal figura do Clarín é o empresário Hector Magnetto. Como foi sua ascensão no grupo?
G.M. – Magnetto começou como contador, um funcionário muito ambicioso. Aos poucos foi ganhando a confiança da viúva Herrera de Noble. Tomou o lugar de Rogelio Frigerio, um homem de muita influência na política argentina dos anos 50 e 60, um dos defensores do desenvolvimentismo argentino, do qual o Clarín foi apoiador.
Magnetto é quem imagina a empresa como um conglomerado, quem negocia as licenças de rádio e TV, quem faz alianças com políticos de diferentes orientações.
Aos poucos, por sua habilidade em manobras externas e internas, tornou-se a figura na qual a viúva mais confia. Comprou ações e se transformou em proprietário e CEO. Hoje, Ernestina tem 34% das ações. Magnetto, 33%. Há dois sócios menores, com cerca de 14%, e o resto está diluído entre pequenos acionistas. Ernestina é hoje uma mulher idosa e está doente. Portanto Magnetto é praticamente o único mandachuva da empresa.
Foi Magnetto que começou as costuras políticas com os governos?
G.M. – Sim, principalmente com os democráticos. O Clarín sempre tentou condicionar o poder político para obter vantagens econômicas. É por isso que em toda a classe política há uma espécie de satisfação com sua perda de influência.
Os argumentos de Raúl Alfonsín (da União Cívica Radical, presidente entre 1983 e 1989) contra o grupo são muito parecidos com os do governo peronista atual.
G.M. – Quis muito mostrar isso. No fundo, o que os Kirchner estão fazendo é um desejo de presidentes que vieram antes deles. Alfonsín ficará na história como um democrata, e não se trata de tirar o mérito histórico dele, pois teve um papel importante na volta da democracia, no julgamento das juntas militares. Mas quando se trata da relação com a imprensa, Alfonsín foi muito duro. Acusava o Clarín de ser da oposição e pressionou para calá-lo. Mandou, por exemplo, a Afip (Receita Federal) se instalar no jornal por meses. Mais ou menos como o kirchnerismo faz agora para pressionar empresas.
Menem também teve uma relação conflituosa com o grupo.
G.M. – Sim, muito. Menem governou com a imprensa toda contra ele. Também foi reeleito, em 1995, com toda a imprensa o criticando. Mas não foi sempre assim. Logo que assumiu, Menem se aproximou do Clarín e alterou a lei de mídia da época para permitir que o grupo comprasse o Canal 13, da TV aberta. Para isso, fez-se uma licitação pública, mas todos sabemos que houve um acordo político.
Menem pensava que estaria comprando o apoio de Magnetto para toda a sua gestão. Só que a imprensa começou a se virar contra ele por causa de uma série de denúncias de corrupção feitas pelo Pagina/12 e que foram “compradas” pelo Clarín. Foi nessa época que comecei a trabalhar como jornalista. Com poucas exceções, nós nos sentíamos em uma cruzada contra o governo. A mídia não estava dividida, os poucos jornalistas que se diziam a favor de Menem eram malvistos.
Não éramos só críticos, mas oposicionistas, e nos considerávamos independentes, tanto quem trabalhava na grande imprensa como os alternativos. Na verdade, nos apoiávamos numa espécie de consenso da classe média de que era preciso criticar Menem. Criou-se uma espécie de irmandade.
À época, a imagem que a sociedade tinha do jornalismo era outra?
G.M. – Completamente. Nós, jornalistas, tínhamos um prestígio social enorme. Para a população, nossa credibilidade estava acima da Igreja, dos políticos, da Justiça, dos sindicatos. Todos estavam desprestigiados, menos nós.
Quando isso começou a mudar?
G.M. – Com a crise política e econômica de 2001, que fez com que a população se voltasse contra os políticos. A frase “que se vayan todos” também se referia a um tipo de jornalismo corrupto e comprometido com forças políticas que estava muito presente. Os jornais passaram a ser desprestigiados.
A publicidade caiu muito e os recursos diminuíram. Com isso, nomes importantes começaram a deixar as Redações. Gente jovem perdeu a ilusão com a imprensa e preferiu sair para fazer outra coisa.
Saí da grande imprensa em 2003, para escrever livros e colaborar com outras publicações. A minha geração sentia que não havia espaço para um jornalismo renovado e de qualidade, e que para isso era preciso deixar a grande imprensa. Foi um momento crítico. O Clarín e o La Nación achavam que iam desaparecer ou que seriam vendidos a jornais estrangeiros.
Foi nesse contexto que Néstor Kirchner (1950-2010) chegou ao poder.
G.M. – Sim, ele assumiu como presidente numa época em que a sociedade já não acreditava na imprensa. Mas ele se uniu ao grupo, ficou amigo de Magnetto e ficou fascinado com essa aliança. Kirchner veio da província de Santa Cruz como um desconhecido, foi eleito com apenas 22% dos votos e só assumiu porque Menem deixou a disputa. Foi fácil deixar-se seduzir pela relação privilegiada com um meio de comunicação. No poder, fez uma série de alianças, entre elas com o Clarín, de quem acreditava precisar. O jornal passou a ter todos os “furos” [notícias exclusivas] do governo. O inimigo do kirchnerismo era o La Nación, por estar na oposição ideológica. Era um jornal conservador que havia apoiado a ditadura. Néstor o criticava enquanto tomava café com Magnetto e passava furos ao Clarín.
O conflito com os ruralistas, em 2008, por causa do aumento dos impostos, mudou o panorama?
G.M. – Sim. O Clarín decidiu ficar ao lado dos ruralistas, mas não só por uma questão política. O governo se achava em decadência, a popularidade de Cristina caía. A classe média, que já não tinha votado nela, ia se decepcionando. A empresa começou a pensar no negócio, não era bom perder audiência.
Lançar Cristina para a sucessão teve impacto negativo nessa relação?
G.M. – Sim, o Clarín não queria Cristina como candidata. A versão que corre é que Magnetto sempre foi contra a reeleição, desde a de Menem.
E a relação de Cristina com o Clarín?
G.M. – Nunca foi boa. Sumiram os cafés e os almoços com Magnetto. Cristina o encontrava de forma protocolar, e sempre dizia a Néstor que o Clarín os trairia. Então passaram a acontecer coisas que fortaleceram essa ideia. Cristina caía nas pesquisas, logo após Néstor conceder a fusão das empresas Multicanal e Globovisión, que favoreceu o Clarín. O jornal começou a fazer oposição e Néstor se sentiu traído.
Em quanto tempo se deu a ruptura?
G.M. – A ruptura do Clarín com o governo foi um processo de um ano. Começou com o problema com os ruralistas e teve seu ponto máximo nas eleições legislativas de 2009, com a dura derrota sofrida pelo kirchnerismo. Começou, então, uma guerra retórica, logo apareceram nos atos públicos os primeiros cartazes e camisetas com os dizeres: “Clarín mente”. O governo cortou as fontes oficiais para jornalistas do grupo e o jornal ficou sem acesso à informação estatal. A derrota nas eleições legislativas doeu muito ao kirchnerismo, até porque o próprio Néstor perdeu como candidato a deputado por Santa Cruz.
Que momentos você destaca como os mais importantes dessa guerra?
G.M. – Depois das eleições de junho de 2009, começou uma série de investidas do governo, que foram respondidas pelo Clarín com fortes denúncias contra o governo.
A estatização da transmissão de futebol, quando a Associação do Futebol Argentino tirou os direitos do Clarín e os passou à TV Pública. Depois, a campanha para pressionar a viúva Herrera de Noble a fazer o exame de DNA de seus filhos adotivos, convencidos de que eram filhos de desaparecidos [os exames, porém, deram negativo].
Em 2009, veio a aprovação da Lei de Mídia – que estabelece medidas antimonopólio –, desenhada para tirar o poder do Clarín. Tudo isso foi acompanhado por uma batalha verbal muito forte, que só veio aumentando até agora.
A guerra midiática prejudica a qualidade do jornalismo argentino?
G.M. – Bastante. A Argentina tem uma tradição jornalística muito longa e boa, que já foi exemplo para outros países da América Latina.
Dá para voltar ao passado e evocar desde o jornal Crítica, de Natalio Botana, no começo do século 20, no qual escreveram grandes escritores como Jorge Luis Borges, Raúl González Tuñón, Roberto Arlt, até a revista Primera Plana, nos anos 60, na qual escreveu uma geração inteira de grandes jornalistas. Mais recentemente, o melhor modelo foi o Pagina/12 no começo dos anos 90.
Hoje, a precisão jornalística não é uma preocupação. Os correspondentes estrangeiros ou jornalistas que visitam o país me perguntam: “o que ler?”, porque não encontram fontes confiáveis, imparciais. Tamanha energia é gasta com o enfrentamento com o governo, que o jornalismo fica para o segundo plano. Isso é muito ruim para a reputação do jornalismo local.